sábado, 26 de junho de 2010

Ruídos

sem -título, 2010. desenho de Rodrigo Cruz.


Aflição 01: O silêncio que esconde um turbilhão de palavras.
Aflição 02: O turbilhão de palavras (incessantes) que esconde o silêncio (vazio) do seu interior.

- A dualidade da arte é o fruto fatal da dualidade do homem - Baudelaire
- Cada homem é dois homens - J.L. Borges

e no vai e vem desse discurso torto, o que se tem?


A seleção de imagens silênciosas para a série da "morte da imagem" me transubstancia na linha tênue que existe entre 01 e 02.

por Renato Rios

domingo, 13 de junho de 2010

Assemblage

sem-título - cera, mogno e pregos. 2010

Chão de cera. Caminhar é difícil. Como de costume, as horas da madrugada se prolongam não só no tempo como também no espaço. Cada minuto é um ser completamente desconhecido. O corpo que se expande no silêncio da rua é o corpo que se comprime no interior deste pequeno atelier.
Cigarro! Pois fumo! Não,
[não é o cigarro.
Vinho! Pois bebo! Não,
[tão pouco a embriaguês.

M u i t o e s p a ç o, poucoespaço. Cabeça cheia.

Nada na cabeça.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio mais uma vez...

Digressões noturnas podem ser perigosas.

O sentir não era agradável. Pensamento pesado. Tato ocre. Respiro abafado.
Tinhamos no corpo vestígios de madeira e de cera.
Embora não soubessemos, nosso corpo sabia e, para a nossa surpresa, este peso morto que carregavamos nos daria o poder do voo, em breve. Mas isso ainda não nos era claro.
Engana-se quem acha que a noite se define pela ausência de luz, outrosim, é na habilidade de seus pequenos objetos iluminados, que se encontra seu mais puro fundamento. Um fundamento as escuras que só o corpo sabe. Que só o corpo sente.

Alguém, com aquele Poema Sujo, nos havia alertado que a noite e o dia tem tempos diferentes, mas ainda não haviamos sentido isso na pele.
Primeiro, foi a cera quem sentiu, logo depois, a madeira.
Esta última, em cuja qual energia já fora empregada, restava natimorta, escorada em algum canto do quarto, dilatando-se e contraindo-se, ansiosa pelo despertar.
Já a primeira, cuja sua pequena estrutura branca e solitária nosso corpo já não mais poderia sustentar - efeito das quatro intensas noites de desbaste -, foi buscar refugio na madeira.

Assim o despertar se fez em conjunto.
Estranha assemblagem, como um encontro às cegas com um desconhecido-familiar;
Uma falsa memória. Um falso elo. Um vínculo inventado.
Digressões noturnas podem ser muito perigosas.

Rodrigo Cruz e Renato Rios.